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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

ATLÂNTICO

nos expulsa

nos invade

nos exclui

nos necessita

nos mata

nos faz morrer

migrante é

traficante

pescador é

traficante

traficante é

animal

animal é

o poder

sábado, 15 de fevereiro de 2025

o temor de mudar
o temor
o tremor de te amar
mar


os beijos, os
amassos, os traços
aqueles tremores
que quebram hasta
aço



as tortas partidas
o adeus da partida
a partida perdida
a parte doída
a bala perdida
partida



one, two, three
your mouth
grita por mí

three, two, one
solamente quiero
comprar pan



PADARIA
en esta ciudad no
hay PADARIA
café con pan, café con pan
por la mañana café
por la tarde pan_run


man in power (again)
auto
das
auto
das autocracias
esta é a pior
queria folia
padaria
só vejo
autocracia


em 20 minutos, 5 poesias
em 20 dias, uma autocracia

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

todas as lindas coisas de amor deixam de ser coisas quando de amor

domingo, 20 de agosto de 2023

aquele segundo
em que faísca inspiração
tão eterno e curto
fugaz, profundo
um segundo


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Tengo Miedo Torero: notas sobre repressão e liberdade

 La cuando no, la cuando nunca, la siempre en domingo, la Teté, la Totó, la Milú, la Chumilú, pero para ti… Dona!

São tempos de crise. Não é novidade, sabemos. No Brasil, a crise é política, econômica e sanitária, a crise é, inclusive, estética. Junto à crise, repressão: repreende-se o corpo que protesta, repreende-se aqueles que reivindicam a vida, a ciência, repreende-se quem pergunta, quem questiona o uso da força pelo estado, quem reivindica maior controle sobre as polícias, sobre o suposto uso legítimo da força. Repreende-se a curiosidade.

Contudo para nós, latino-americanes, não é novidade. Aqui repreende-se de novo. São as nossas feridas abertas, que, nunca cicatrizadas, ainda sangram mesmo após o fim das ditaduras. No Brasil, especialmente, porque aqui lembramos pouco. Houve pouco espaço para memória e menos ainda para justiça. Quando tentamos, não nos deixaram lembrar e quando conseguimos, como Argentina, nos repreendem chamando-nos de vingativos e presos ao passado. Repreende-se porque, como diríamos nas Relações Internacionais, o controle civil democrático é frágil, porque nossa possibilidade de reivindicação aos atores estatais para que o uso da força ou violência interna não aconteça permanece constrangida. 

São em tempos assim que Tengo Miedo Torero (2020) navega. Entre a repressão, o uso da força pelo estado e a liberdade, o filme relata os (des)amores de uma mulher trans durante a ditadura no Chile. Dirigido pelo chileno Rodrigo Sepúlveda e baseado no livro homônimo de 2001 de Pedro Lemebel, o longa intervém na nossa realidade trazendo, além da memória sobre o passado, o sopro de arte para nos dar subsídio para viver o presente. 


Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, coloca que para passarmos da ingenuidade para a criticidade deve haver uma “rigorosa formação ética ao lado sempre da estética [...] decência e boniteza de mãos dadas”. Atualmente, permeados por símbolos ufanistas, militares no governo, cortes financeiros às artes e às ciências e declarações violentas do presidente, falta-nos boniteza e, junto a isso, decência. Palavras de Freire que possibilitam pensar que arte e liberdade são essenciais para um enfrentamento crítico da repressão que o governo de Bolsonaro representa.

Tengo Miedo Torero

“La cuando no, la cuando nunca, la siempre en domingo, la Teté, la Totó, la Milú, la Chumilú, pero para ti… Dona!” Assim apresenta-se La Loca del Frente, a protagonista do filme. La loca é uma mulher trans, que encontra, na noite chilena, Carlos, um arquiteto mexicano, guerrilheiro opositor à ditadura Pinochetista. Entre a paixão (de la Loca) e os sentimentos mistos, entre a entrega e a manipulação (de Carlos) a relação deles se constrói. La loca demonstra ao longo do filme estar ciente que a relação entre eles é uma armadilha, para Carlos, aparentemente, o envolvimento é sempre limitado por sua masculinidade heterossexual. 

La loca, apesar de irreverente e até inconsequente frente aos militares de Pinochet, não adota, em nenhum momento, um olhar romantizado sobre a violência, assim permite envolver-se em um romance, no contexto da ação contra a ditadura - sabendo dos perigos de se apaixonar por um homem aparentemente heterossexual.

Lemebel, escritor chileno autor do livro, realizou inúmeras performances durante a ditadura do Chile, partindo de sua existência homossexual, mas atravessando, com suas intervenções, a memória, os direitos humanos e a democracia junto com a sexualidade.

Assim, o filme navega entre a represssão e liberdade, ao passo que também nos permite perceber como somos seres políticos e amorosos ao mesmo tempo - nesse sentido, ao meu ver, dialoga com Freire, que não só a amorosidade defendia, mas tambem a luta radical contra as opressōes e a possibilidade de, nesse processo, sentir raiva. Sensível, profundo, potente - la dona sin nombre tem meu coração.

Texto de Alessandra Jungs de Almeida, 2021.


sábado, 5 de novembro de 2022

Para todas aquelas que não estão

As que não foram lembradas, as que não foram contadas

As putas
As prostitutas
As mães e as donas de casa
para as trans
as travestis 
todas aquelas ignoradas

para as não identificadas

para todas aquelas que não encontramos
as sem foto, sem rosto, só corpo...

para todas as que não foram contadas: 
contar mais uma 
e duas
três
lembrar todas aquelas
que podemos contar!

para cada uma que não foi lembrada:
recordar
uma por uma
das que conseguimos contar
encher listas, mostrar fotos, pintar rostos
erguer-se e erguer outras 
para lembrar
cada uma e uma por uma

para todas aquelas que não estão
buscar justiça 
para todas aquelas
que não foram
contadas, buscar justiça, 
para todas aquelas que não foram 
lembradas!

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

domingo, 30 de janeiro de 2022

no porão 
tem um piano
lá está
ele
o piano

eu o olho
ele foge
o piano

sempre há ali
o piano e mais alguém
se escondendo
da neve mais 
do calor mais
indo passear
pois é só o porão
lugar-de-estar

perdi tudo
cada fio de sonho
que antes escorria sobre mim
agora de mim cai
não tenho nada
e pouco sobra
escorre também o dia
que é mais curto a cada ano
e me deixa bruta
lenta
sem aprender a tocar piano

se sou
não sei
quero girar
na cadência
das cadeiras
de quem sabe 
que a dança
beira o saber
daquele que 
tem gosto bom de viver

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

os dias

os frios dias
que nada mostram
que não nos deixam
esquecer
dos corpos quentes
vivos
potentes
da terra
em que os frios dias
ao sul
lá no final
se preenchem
com rima, ritmo e sol

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

põe
a mesa na calçada
se for amarela
melhor
calor
suor
traz mais uma, duas
a conta?
depois

põe na poesia
que aqui não tem bar
tem brunch
aqui não tem "ei meu camarada"
tem "hey"
cadê a festa?
cadê?
sumiu...

leio
livro
repito

sábado, 10 de outubro de 2020

pequeno manual autoritário de disciplinamento político-poético do corpo

não precisamos
saber
sabemos tudo
sabemos como disciplinar
        o corpo
        as crenças
        o tempo 
do mundo

não é necessário saber mais
o branco é branco porque é
o homem está no poder porque pode
você não precisa saber mais

chegue do trabalho
descanse.
você não precisa saber nada
mais
o algorítimo já existe + hollywood + álcool + uma mulher + riso de escárnio + meu dedo em riste + o cassetete + uma mulher

então: pra quê ciência?

não discuta
não levante
        a voz
        a cabeça
        outros levantes - 
não dance, não ria, sem rebeldia!

quieta,
você não precisa de ciência
cale seu corpo
pra sustentar
        seu chefe        
        a pandemia
        o trabalho no próximo dia.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 a vida da poesia começa seca

sem alegria.

tem que rachar 

embaixo da pedra

que estoura, grita

implora que verta.


explode, é poesia.

poesia de varanda

pegar sol
das 10h às 12h
que é quando ele passa por aqui.

as planta tudo
estão tão tristes
escondidinhas
na sala de estar.

sábado, 18 de janeiro de 2020

quotidiano

escrever poesia
todos
os dias
tarefa árdua
quem tem tanto
sofrimento
tanta alegria?

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

era pra ser um poema de amor

quem suporta inverno,
sabe que passa junto com choro
passa também o olho enviesado que alguém
amistoso, mas hostil, contradito no
próprio jeito não
fica
junto com o fascismo
bate essa bota
bate outra bota

passará.

sábado, 19 de outubro de 2019

minha avó não costurava
mas ao fazer
sua mão firme
traçava a linha
de ponto em
ponto
guardando 
em cada nó
um pensamento