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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Inverno de inferno


Ele não quer amar,
Ser primitivo que fica a bramar,
Diz-se moderno, tem medo de ar,
Ele não quer amar.

Quando o sol se põe,
Ele colhe uma flor.
Quando a noite cai,
Lamenta uma dor.

Ele tem um coração bucólico,
E finge ser meio profeta.
Nunca é triste, só melancólico,
Que é palavra pra dor de poeta.

Ele não quer amar,
Volta às antigas, querendo ser mau.
Fica à deriva, sem pedestal,
Ele não quer amar.

Numa viela, ele encontra um amor,
Detona orgulhoso todo o fervor.
Sozinho, medroso, se vira em terror,
Bárbaro, rústico, é medo da dor.

Ele não quer amar,
Como um leão, finge rugir.
O suor do seu corpo tenta fugir.
Ele ainda não sabe, mas vai amar.

Numa manhã de inverno,
Ele reconhece o natural.
Ele aceita todo inferno,
E faz de conta que amar é banal.

Ele decide amar,
Corre até ela, todo eriçado.
Pede um beijo, desventurado.
Ela não quer mais amar.

Ele vê-se perdido.
Com um coração sem glória.
Uma alma sem vitória,
Ele vira bandido.

Perdido.
Bandido sofrido.
Decidido.
E munido.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Remédio amargo

A doce pílula
Range entre os dentes
Rasga a garganta
Corrói o destino
Apaga o que foi.

Vazio, vazio, vazio...

Maldita no dia
Vingança invernal
Suje sua alma
Mantenha-se calma
Apaga o que foi.

Vazio, vazio, vazio...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ousado Sr. Outono

Vem a camareira.
Saia leve,
Olhos de seda.
Boca gentil
Mais tendência que "Brazil".

Sai do quarto escuro,
Sol da tarde se vai.
Mil passos até o nono,
Um sorriso tonto.
Suma, Sr. Outono.

Uma carta eternizada,
O pássaro sem endereço.
Uma lágrima sintonizada,
A procura pelo seu começo.
Um rádio desligado, ousado.

Em suma, suma Sr.
Saia e a leve.
Leve a saia.
Saia,
e leve.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Embriaguez


Você diz que tem medo de altura, eu te levo em um dia de verão até a montanha mais alta, você espalha seu riso satisfeito pelas árvores. Então você me diz que ainda tem medo de altura, mas em dias frios é mais intenso.

Tento descobrir você, armando minha teia como uma aranha ao redor de um mosquito, devagar encontro todos os seus pontos, os fortes e principalmente os fracos, tão pouco palpáveis para quem não te conhece. Mas é necessário saber tudo isso e você sabe que sim.

Um dia você acorda dizendo que odeia azul-marinho e no outro estranhamente aparece em minha casa me mostrando um lindo vestido rodado que você experimenta pra mostrar apenas pra mim. Existe uma harmonia incrível com sua pele branca e pálida e a cor azul-marinho. Você sabe disso agora, e começa a adorar a cor.

Você é concisa e de uma objetividade tamanha que algumas vezes o melhor a fazer seria calá-la. Mas não quero isso, sua voz é pra mim um sinal de rebeldia, algo que me acompanha enquanto trabalho, enquanto estudo, enquanto caminho e dirijo.

Tem dias que acordo e não quero te ver, você me inebria me extasia. Percebo que eu simplesmente não preciso da minha cota diária de você e incrivelmente você também sabe disso.

Em um entardecer disse pra você o quanto o pôr-do-sol me deixava triste, você me disse pra não usar essa palavra. Não por que não gostava da tristeza, apenas por que a palavra melancolia era mais bonita e mais poética. Então eu deveria estar melancólico, e não triste.

Por alguns minutos fiquei bravo, mas passado alguns instantes eu já tinha aceitado a ideia e até pude fazer você rir com alguma piada qualquer que havia ouvido no escritório.

Embriaguei-me de você, do seu vestido azul-marinho e suas botas diárias cinza escuras, me deliciei com sua beleza, com sua excentricidade e com sua paixão pela vida.

Conheci seus pontos fortes, e seus pontos fracos. Abstrai tanto do que havia dentro de ti que me vi transformado em um mistura errônea, algo que não queria ser.

O sol se põe todo o dia e descobri que triste eu estaria todos os dias.