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quarta-feira, 4 de julho de 2018

TECER O FLORIR

Basta uma folha em branco
para me escrever
terreno de semeadura
do sentir e viver.

Mas o viver só não basta
não cresce sem a paixão
essa energia e potência
à semear no mundão.

Cava, limpa
suja as mãos
espera, rega
sussurra e ri.
Numa vida cabe
esse tecer o florir.

Florianópolis, jul. 18
Após pensar sobre o conto dos sapatinho vermelhos, analisado no cap. 8 de "as mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Estes.

sábado, 2 de junho de 2018

sonho de parto

eu preciso me parir
sou a maçã
em formação
a fruta que implora
para cair do pé
e rolar, virar semente, florescer
novamente.

é necessário que eu me 'para'
que eu solte as raízes
balance o cabelo
vire e revire nos braços
de outro alguém para então
mesmo com toda quentura
dizer apenas:
não.

eu quero urgentemente me parir
ver os nós do corpo todo a me soltar
deliciar-me com
minha voz, meu olhar
minh'alma que sei que está lá
e dos teus olhos me desvencilhar.

parir a mim mesma numa noite de frio
parir a mim em jacarta ao som de rita lee
parir fugindo e me mostrando
parir eu mesma, sabendo que quero me ter
sem saber se posso me ter.

jun. 2018/ Panambi - RS
Após sonhar com uma gravidez que gostava no início, mas que depois decidi abortar por conta do julgamento das pessoas. Carl Jung vê sonhos de gravidez como o renascimento da própria personalidade, é um troca de pele. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

verraad

corrói, mas rompe
o que
dentro está

latente desejo
ao toque, à voz...
(teu som de melodias tão
lascivas)

rompe a crista divina
pura
banal

traz furacão
sons sem ritmo
danças em descompasso
desordem total

no meio da bagunça
um coração
pulsante
gritante!
remoendo paixão

nas veias mais antigas,
nos suspiros mais treinados,
nos olhares mais sem brilho:
explode!

suga o que vem, dele
dela e nega
até
o fim
cada célula de perturbação.

domingo, 6 de maio de 2018

dia poesia

dia poesia
aquele em que escuto
o sussurrar
da minha voz
e adormeço

dia poesia:
olho o sol
há gente, há
a
mar
elo

dia poesia
em que o batuque
tomou conta
da rua
do canto provocador
latino
hispânico
das palmas do pescador


dia poesia,
sigo meu corpo e sinto
o forró que vem da gaita
no arante, mais ao sul,
entre cachaças e passos errantes

dia poesia,
me de(le)ito
com o passar do vento
no coqueiro.

Florianópolis, 2018
depois de um dia em Armação, Matadeiro e Pântano do Sul