Páginas

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Um ventre para Matilde

Matilde tinha medo de não ser
Era alta, quando lhe diziam ser
Era culta, mas podia não ser
Vazia, quando gostaria de ser
Sempre, sobre ser algo em ser

Matilde queria ser sempre ser
Mulher, só quando lhe deixavam ser
Quando lhe diziam não ser
Que era necessário ter ventre pra ser
Ela dizia não, então, não, não precisava ser

Matilde podia ser outra coisa então
Seria algo mais acabado
Mais terminado
Mas algo tinha que ser
E lhe perguntavam:
"como sois?"
sobre algo de ser
ao que respondia
"só sou,
se queres ser,
sê".



terça-feira, 18 de abril de 2017

meia-lua do gato de rua

não é 2016 num golpe sem armas

é um corpo
que dança
gira
e re-dança
na capoeira
pra lá e
pra cá

é um tronco
vibrante
que no susto te atrapa
com golpes no ar,
e instrui, introduz
com seu olhar

é o gingado
malandro
que entre
meandros
faz a meia-lua
de frente e na frente
como um gato de rua

é a chispa divina
de rebelião
na vulva armada
da revolução.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

sei-os

eu os amo
amo-os como se fossem meus
e são
apesar de tantos olhares
enviesados

são um pouco diferentes,
evidente,
como poderiam ser iguais?

são observados,
algumas vezes ignorados,
mas nunca deixados de lado.

amo acaricia-los
a maneira como repentinamente
arrepiam-se!

será que estão assustados?
com frio?
ou brabos
por serem
tocados?

não,
logo após,
esquecem tudo
e,  de repente,
estão comportados.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

really deep in my soul:

a única parte
realmente
verdadeira em tudo que sou
é o que omito todo o tempo
quando não o sou

é a mentira naquilo que faço,
o olhar que não dei
o charme que escondi
a palavra que nem lembrei

a parte verdadeira que não omito
é também o que sou
é o que dói mais fundo, no fundo
tudo que quero
é te esquecer e mandar você se fuder.